The Waking Worlds
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Capa de The Waking Worlds, Episode One. Quatro figuras diante de uma nebulosa e de um planeta; uma delas segura uma bola de fogo.

Episódio Um · Já à venda

Yunus Alper Körükcü & Fırat Keleş

Das cinzas renasceremos.

Da contracapa

  1. Trascott já aceitou trabalhos em mais mundos do que seria capaz de nomear. Este parecia simples.
  2. O que desce dos galhos tem chifres, sangue ainda nos dentes e, no pescoço, uma pedra que a mantém viva.
  3. Sob a areia em que ela pisa jaz uma frota que não se move há três mil anos, e ela é a última capaz de despertá-la.
  4. Space opera, e por baixo dela corre algo mais antigo.
  • 80 ilustrações coloridas
  • Disponível somente em inglês
  • Primeiro livro de uma série
  • Para leitores de The Expanse e O Nome do Vento
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O livro foi escrito e publicado somente em inglês. As páginas traduzidas deste site são apenas uma prévia.

Leia as primeiras páginas

Capítulo 1Círculo Estéril

As primeiras vinte páginas do capítulo um, de graça. Escolha um idioma e pouse em 54-6UE2 com a tripulação.

The Waking Worlds foi escrito e publicado em inglês, e o livro só existe nesse idioma. Estas páginas traduzidas são uma prévia que preparamos para você conhecer a tripulação na sua língua antes de comprar o livro em inglês.

A chamada saiu pelo canal aberto, monótona e protocolar, como mil outras antes dela.

— West L6F, estação de controle de 54-6UE2, aqui é a Faul Fender. Solicitando descida no seu setor aberto adjacente. TG-6.6, vetor 0,65, grade 732 por 1432.

A resposta chegou esgarçada pela distância. — Entendido, Faul Fender. As condições parecem aceitáveis. As informações que vocês declararam parecem ter sido protocoladas aqui pela sua organização. Vocês estão liberados.

Trascott se inclinou para o console com a simpatia fácil de um homem que nunca, nem uma vez, tinha ouvido um não. — Ah, obrigado. Fico muito grato por esse seu discursinho tão lindo e cortês.

Silêncio do outro lado. Quando o controlador voltou a falar, alguma coisa na voz dele tinha saído do prumo. — Ah. Sim. Bem. Desejamos a vocês uma visita agradável.

— Muito agradecido, oficial.

O canal se desfez em estática.

Do outro lado da vigia, o planeta girava. Terras verdes se estendiam por centenas de quilômetros e, entremeadas à copa das árvores, erguiam-se estruturas que se recusavam a se tornar qualquer coisa reconhecível. Povoados, não. Nem ruínas, exatamente. Formas das quais o olhar escorregava sem parar. Entre o verde havia manchas onde não crescia absolutamente nada, escuras e planas e erradas de um jeito que a luz não conseguia explicar.

Vista da órbita: um planeta verde entremeado de estruturas estranhas e um círculo morto de deserto onde nada cresce.

A estação pairava em órbita, o mais longe que a Faul Fender tinha permissão de ir. Dali para baixo, só de nave auxiliar.

O motivo era o escudo. Uma película de energia azul envolvia o planeta, sem emendas, ancorada na própria estação, e só havia um jeito de atravessá-la, num sentido ou no outro.

Havia soldados à espera deles na doca. Não uma guarda de fachada. Um destacamento.

— Agora vamos entrar nos lugares chiques, meninas — anunciou Trascott. — Preparem-se.

— Entendido, capitão — disse Fellin.

— Senhor — disse o timoneiro —, estamos embarcando na nave auxiliar.

Dois soldados os levaram a bordo. Nenhum dos dois ofereceu a mão.

— Boa noite, senhores, senhoras. — Trascott se abaixou para passar pela escotilha. — Meus documentos foram aprovados na chegada. Algum problema?

O soldado pediu a localização deles. Depois pegou o tablet com a documentação e o jogou de lado como se fosse papel de bala.

— Passa a localização pra eles, B — disse Trascott.

Brandon Fury não tirava os olhos do próprio tablet. — TG-6.6, vetor 0,65, grade 732 por 1432. É a descida que solicitamos. Terreno estéril. Presumo que vocês o conheçam.

O segundo soldado pôs a mão no ombro de Trascott e o conduziu até o assento. Assim terminou a conversa. O piloto selou as portas e pôs a nave auxiliar na rota.

Pelas janelas, a superfície que se aproximava não tinha nada de vazia. Outras naves auxiliares militares já tinham pousado, espalhadas pela paisagem em acampamentos sem nenhuma relação aparente entre si.

— Pelo visto, não são do tipo simpático — disse Trascott.

Fellin não tirou os olhos da janela. — Nem nós. Não me incomoda, T.

— Eu sou extremamente simpático — disse Trascott.

Os soldados não disseram nada pelo resto da descida. Nem para eles, nem entre si.

— Eita. Olha só — murmurou Trascott. — Estão mesmo fazendo toda aquela pose de durão.

— Hum. Sei. Claro. — Fellin se voltou para a janela.

O chão veio subindo.

Trascott aguentou mais um minuto antes que o silêncio o vencesse. — Entããão. Senhores. Senhoras. Como vai o trabalho? Vocês não parecem estar se divertindo muito. Não dão folga suficiente pra vocês, não?

Nada. Nem sequer uma mudança de postura.

— Uuuh. Modo silencioso.

— Você nunca para de falar? — disse Fellin.

A nave auxiliar pousou. A porta se abriu com um chiado.

— De vez em quando — disse Trascott, sorrindo.

O soldado que tinha ficado de pé a viagem inteira desceu primeiro e esperou.

— Acho que essa é a nossa deixa.

Ele desceu a rampa e seguiu andando, e os outros foram atrás. Às costas deles, o soldado voltou a embarcar, e a nave auxiliar decolou sem cerimônia.

Para além da borda do terreno estéril, começava o verde. Mais adiante, água.

— B, manda a nave descer, assim eles param de olhar a gente de cima — disse Trascott. — Você avisou que a gente não estava sozinho, né? Se bem que eles deram uma bela olhada nela. Já contaram o nosso pessoal.

— Ah, sim, senhor — disse Brandon Fury. — Creio que a nossa tripulação foi a última coisa que eles examinaram.

Trascott protegeu os olhos com a mão. — Aquela chegando ali é a nossa? Parece que mandaram ela descer.

A nave chegou. Quando pousou, os indícios estavam estampados no casco. Painéis ligeiramente desalinhados. Nada quebrado. Tudo mexido.

— Minha entrada estilosa inteirinha, arruinada — disse Trascott. — Está vendo isso, Fellin? Vou fazer uma carinha triste.

— Eles reviraram um pouco as coisas, senhor — disse Brandon Fury. — Procurando algo, eu diria.

— Se eles botaram a mão nas minhas coisas — disse Fellin —, vão se arrepender.

O que quer que estivessem procurando, não tinham encontrado.

— Eita. Essa aqui fica agressiva às vezes — disse Trascott.

— Sim, senhor — concordou Brandon Fury. — Um pouco.

Trascott se virou para o tripulante mais próximo. — Você. Qual é o seu nome?

— Rapson, senhor!

— Rapson!

— SIM, SENHOR!

— Que diabos aconteceu aqui? O que essa gente queria, cargas de laser? Alguma coisa assim?

— Não sei, senhor. — Rapson manteve os olhos à frente. — Mas eles olharam em todo canto.

Essa era a parte estranha. As armas não os tinham interessado. Nem os suportes, nem os caixotes. Tinham vindo atrás de algo específico.

Um objeto.

— Eles nem olharam para as armas, senhor — disse Rapson. — Era como se estivessem atrás de outra coisa completamente diferente.

— Hum. — Trascott esfregou o queixo. — Que estranho. Vai ver estavam procurando o meu coração, que anda sumido. Hein, Rapson? Hein?

— Ah. Hã. Sim, senhor.

Trascott se desmanchou em gargalhadas.

— Se já achou o seu coração, vamos andando, caubói — disse Fellin. — Chega de barulho. Temos trabalho.

— Sim, senhora. Mulher-Supermissão. — Ele acertou o passo com o de Rapson e baixou a voz. — Que tal a piada?

— Foi boa, senhor. Hehe. Hehe.

Eles seguiram em direção ao verde.

A floresta foi se revelando à medida que se aproximavam. As árvores eram mais altas e bem mais densas do que pareciam vistas do alto. A pouca luz que furava a copa não chegava ao chão.

— Verde e floresta no meio de um deserto — disse Trascott. — Olha só que coisa. Já estou começando a amar este lugar.

— Todo planeta tem a sua própria flora, Tras. — Fellin não diminuiu o passo. — Isso é normal. Até parece que você nunca saiu de casa. Comparado com aquela calota de gelo roxa e aquela chuva amarela, isto aqui é praticamente um jardim.

Trascott estremeceu inteiro. — Credo. É. Aquilo. Fiquei uma semana doente. Se eu tivesse epilepsia, tinha morrido lá. — Ele se recompôs na hora. — Não, este lugar é bom. Espera, espera, todo mundo espera aí.

Todo mundo esperou.

— Antes de entrar na floresta mal-assombrada, enquanto o deserto ainda está atrás da gente. Fellin. Vem cá.

— O que foi agora. — Ela veio mesmo assim.

— Rapson!

— Senhor!

— Pega isto aqui. — Ele enfiou uma câmera nas mãos do rapaz. — B, deixa a nave no enquadramento.

— Enquadrada, senhor.

— Manda bala, Raptor.

Ele passou o braço pelos ombros de Fellin e fez pose.

— É Rapson, senhor. Não Raptor.

— Lindo.

Seguiram rumo às árvores.

Ao longo daquele trecho, o deserto começou a incomodá-los, embora tenha levado um tempo até entenderem por quê. Visto da órbita, ele era redondo. Um círculo quase perfeito de terra morta, cercado de verde por todos os lados, e nenhum acidente do terreno o explicava.

Nada jamais tinha crescido ali. Nem recentemente. Nem em tempo algum.

Mais perto, um capim cercava a floresta, se é que capim era a palavra. Passava da cintura, áspero e meio acinzentado, e ninguém estendeu a mão para tocá-lo.

— Mas que coisa é essa — disse Trascott. — Já era assim antes?

— Não, senhor — disse um dos combatentes.

— Fellin?

Ela estava com o tablet na mão. — Aqui diz que tem estradas. Estamos indo na direção de um povoado. — Franziu a testa para a tela e depois guardou o aparelho. — Não se preocupe. Deve ter alguma explicação.

— Por acaso alguém trouxe um cortador de grama?

— Para de falar e me ajuda a abrir caminho aqui.

Os combatentes atacaram o capim com lasers.

O capim foi se abrindo sob o corte e, à medida que se abria, revelou-se uma trilha. Não aberta por eles. Já estava lá.

A conversa morreu. As mãos foram às armas sem que ninguém desse a ordem.

— Não estou gostando dessa sensação — disse Fellin.

— O que foi? Cobra? — Os ombros de Trascott sacudiam. — Daquelas bem grandonas?

— EU JÁ FALEI PARA VOCÊ NUNCA MAIS TOCAR NESSE ASSUNTO. — Ela se voltou bruscamente para ele. — E aquela coisa tinha metade do tamanho da nave. Não era uma cobra, Tras, era uma fera.

— Tá bom, tá bom, calma, foi brincadeira. Mas foi divertido caçar, não foi?

— Ah, foi o máximo.

Acima deles, galhos se mexeram.

Trascott ergueu a mão espalmada. — Vocês ouviram isso?

Todos pararam. Todas as armas se ergueram.

A sombra dominava as partes mais altas da copa. Em meio a ela, lá no alto dos galhos, pendiam os soldados. O mesmo uniforme dos que estavam na estação. Suspensos pelo pescoço por cordas fiadas de laser.

Soldados pendurados nos galhos altos da copa escura de uma floresta.

— Este lugar é um filme de terror — sussurrou Trascott.

— Dá pra você ficar quieto. Por favor.

— Ha. Merda.

— O que aconteceu aqui? — disse Fellin.

— B. — A música tinha sumido da voz de Trascott. — Você consegue avisar aqueles nossos amigos tão durões lá de cima que vários dos homens deles estão, neste exato momento, balançando nas árvores?

— Claro, senhor. Tentando estabelecer conexão.

Ele tentou por um tempo. A copa engolia as transmissões inteiras, e quanto mais fundo eles entravam, pior ficava.

— Senhor, a comunicação é impossível. Nenhum aparelho aqui está conseguindo captar sinal.

Lá em cima, nos galhos, as sombras se moveram. Não com o vento. Ao longo da trilha, à frente deles.

— Fellll — disse Trascott. — Será que a gente não devia voltaaar?

— O que foi, supercaçador Trascott. — Fellin não se virou. — Com medo?

— Ha. Não. Claro que não. — Ele riu. — Quer dizer, ahaha, claro que não. Continuem cortando, senhores, vamos lá.

Os combatentes continuaram cortando. A trilha se alargou.

— Temos equipamento — disse Fellin, num tom mais gentil. — Se tem algum primata por aqui que conseguiu enforcar uns homens, passamos anos caçando exatamente isso. Não fique nervoso.

— É. É, eu sei. A gente já passou por cada uma. — Mesmo assim, os olhos dele voltaram a subir. — É só que aqueles caras eram tão durões, e aí eu vi eles na árvore, e me deu um troço.

Fellin sorriu.

O capim foi rareando conforme avançavam, e o terreno deixou de estar vazio.

Encontraram o resto dos soldados. Esmagados sob pedras armadas para cair. Jogados em fossos e largados sobre as estacas do fundo. Dilacerados. Queimados. O que quer que mais tivesse acontecido com eles, a maioria tinha flechas cravadas no corpo.

— Caramba. — Trascott ficou olhando. — Viraram sacrifício de alguma tribo ou coisa assim?

— Isso aqui claramente não é coisa de tribo primitiva — disse Fellin.

— É. Não. As flechas não são primitivas. — Ele se agachou ao lado de um dos corpos. — Ninguém me leve a mal, mas eu curto o estilo deles. É um trabalho bem maneiro.

— Senhor — chamou um combatente, mais adiante. — Tem mais mortos aqui.

Fellin já tinha apanhado uma das hastes. A ponta era lisa, cortada com uma precisão que encerrava a discussão. Trabalho de laser.

— Esta terra já bebeu muito sangue — disse Trascott.

— São feitas sob medida. De alta tecnologia. — Ela girou a flecha contra a luz, e sua voz mudou, como sempre acontecia quando pisava em terreno conhecido. — Essa é a minha área. Isto é trabalho de Tul-Ji, ou alguma coisa vinda de Ash-Beta. Já comprei muita coisa dos dois. Eles fazem os melhores arcos e flechas que existem. — Ela fez uma pausa. — Se bem que sempre existe algo melhor do que o melhor.

Um campo de batalha no capim: soldados caídos e flechas cortadas a laser fincadas no chão.

— Não sei a diferença entre um arco e uma flecha — disse Trascott. — Me traz um explosivo decente e uns brinquedinhos legais.

Ele avistou a marca. No tronco de uma das árvores, num entalhe fundo e antigo, havia uma forma.

Um cisne.

Um cisne entalhado fundo no tronco de uma árvore antiga.

— Aaah, tem um cisnezinho aqui em cima. Alguém entalhou o amorzinho na árvore.

Fellin lhe lançou aquele olhar. Na versão completa.

— Que tal comentar menos, Tras?

Ela se aproximou da marca. — Isso provavelmente diz mais sobre o povo daqui do que qualquer outra coisa que vimos. B, passa o scanner nisso. Vamos ver o que o banco de dados universal tem.

— Claro, senhora.

O resultado da varredura veio rápido, e o que trouxe era antigo. A marca era territorial. Muito tempo atrás, tinha sido o jeito de dizer esta terra tem dono, e alguém ainda a entalhava nas árvores, o que mostrava que a reivindicação valia alguma coisa para eles.

— Hum. Então eles marcam território. — Fellin assentiu devagar. — Primatas fazem isso. Nós fazemos isso. É uma das poucas coisas que todo ser vivo tem em comum. Isso é útil.

— Ótimo, maravilha, já temos a tal coisa útil — disse Trascott. — E agora, fazemos o quê?

— Seguimos em frente.

Lá em cima, nos galhos, algo abriu os olhos.

— Mantemos o foco no motivo que nos trouxe aqui — disse Fellin, num esforço enorme para firmar a voz.

Os combatentes formaram um círculo sem que ninguém mandasse, com Trascott, Fellin e Brandon Fury no centro.

— Senhor, tem alguma coisa aqui!

— Sim, obrigado, não sou cego, soldado. — Trascott não parava de virar a cabeça. — Feeeell?

— Todo mundo calmo. Vamos tentar conversar com eles.

A sensação de estarem sendo vigiados durou o bastante para deixar de ser só uma suspeita.

— Senhor. — Brandon Fury manteve a voz baixa. — Para mim, eles parecem assassinos. O senhor viu o que fizeram com aqueles homens. Em vez de conversar, talvez devêssemos falar com eles na língua deles.

— B, agradeço a contribuição, meu amigo, mas este é um momento absolutamente péssimo para começar uma guerra, então eu gostaria que você calasse a boca.

— Claro, senhor.

— Concordo com o Tras — disse Fellin.

Algo desceu da árvore.

O galho de onde saiu ficava tão alto que uma queda dali teria arrebentado qualquer soldado. Pousou sem esforço e sem ruído, e se endireitou diante deles.

Duas lâminas curtas cruzadas nas costas. Capuz erguido e fechado. Nada lá dentro além dos olhos, e os olhos estavam acesos.

Fellin abriu caminho por entre os combatentes. — Todo mundo atrás de mim. Vou tentar fazer contato.

Trascott foi para o lado dela mesmo assim.

— Ah. Olá. — Fellin ergueu as duas mãos, vazias. — Você fala a minha língua? Ou consegue traduzir?

— Senhora, devo trazer o tradutor universal? — gritou Brandon Fury lá de trás.

Ela o ignorou e deu um passo lento à frente. Trascott foi junto.

A voz, quando veio, era de mulher.

— Vedui'.

— O motivo de estarmos aqui é simples — disse Fellin, com cuidado. — Não temos ligação com ninguém neste planeta. Você tem a minha palavra. Vamos fazer o que viemos fazer e vamos embora.

— Pelo menos esse é o plano — resmungou Trascott.

— Vedui'. — Fellin soltou o ar. — Maravilha.

— Concordo, maravilha — disse Trascott. — O que ela está dizendo?

— Nós não falamos a sua língua. — Fellin enfiou a mão na jaqueta. — Mas eu tenho uma coisa.

Tirou um pequeno aparelho e o encaixou no ouvido.

Uma mão se ergueu. Pare.

— Uau — disse Trascott, num sopro. — Você não para de tirar tesouros do bolso.

— Eu conheço a sua língua, forasteira.

As palavras vieram num registro que não era exatamente som. Fellin tirou o aparelho do ouvido e o guardou.

A voz era jovem. Por baixo dela corria algo doce.

— Perdoe-nos por entrar no seu território sem sermos convidados — disse Fellin. — Somos completamente forasteiros aqui.

— Que voz linda ela tem — sussurrou Trascott.

— Não vimos muita coisa de que gostar desde que chegamos — continuou Fellin. — Se bem que também não posso dizer que gostamos dos soldados que nos receberam.

— Durões — disse Trascott —, mas sem um pingo de alegria. Chatos. Isso eu confirmo.

Fellin se virou para ele. O rosto dela não entregava absolutamente nada.

— Que foi?

A figura deu dois passos à frente, entrou na luz e deixou cair o manto.

Ela era de um negro absoluto. Não um tom escuro. Negro como só uma ausência consegue ser. Cravados nesse negro estavam os dois olhos acesos e um sorriso que se abria mostrando duas presas ensanguentadas. Um vermelho corria por baixo do negro da pele. Chifres se erguiam da cabeça, e as orelhas se afinavam em pontas logo abaixo deles. Tatuagens subiam da gola e se espalhavam pelo rosto, ramificando-se como se crescessem, e claramente continuavam pelo resto do corpo.

No pescoço, pendia de uma corrente um cisne lavrado num metal que nenhum deles saberia nomear, e que valia mais do que a nave auxiliar que os trouxera até a superfície.

— Olha só isso. — A voz de Trascott subiu uma oitava. — É a minha ex, é a Millenna de novo, tem um quê dela, mas essa aqui é outro nível, sério.

— Dá pra calar a boca — sibilou Fellin.

De tudo o que eles sabiam nomear, o mais próximo era um elfo. Era essa a forma dela. Mas as diferenças não eram sutis, e ninguém se ofereceu para dizer o que significavam.

Fellin pigarreou e se aprumou. — Já conhecemos elfos, e raças parecidas com eles. Somos uma companhia que aceita trabalhos itinerantes. Mas acho que nunca encontramos ninguém do seu povo.

Ela os estudava. Sem responder. Estudando.

— Eu ia lembrar — disse Trascott. — Disso você pode ter certeza.

Fellin ficou imóvel.

— Pode estudar à vontade — disse Trascott. — Sou um espécime magnífico, e o meu respeito pelas mulheres é infinito, senhora.

— Ah, Tras.

— Que foi?

— Fale.

Ela tinha começado a rodeá-los, e a palavra veio de algum ponto ao lado.

— Eu ou ela?

— Senhor, eu posso explicar — gritou Brandon Fury lá de trás.

Agora ela rodeava Trascott.

— Se alguém aí atrás der um pio — disse Fellin —, eu mesma enforco o infeliz.

— Ah. Olá. Sim. Permita-me. — Trascott abriu as mãos. — Somos uma companhia. A Fellin e eu a fundamos. Meu nome é Trascott. Esta é a Fellin, os homens atrás de nós são meus, e aquele é o meu timoneiro, Brandon Fury.

Ela continuou rodeando.

— Aceitamos contratos. Terminar trabalhos que ficaram pela metade, mistérios, esse tipo de coisa. Quarenta e três cruzadores pesados registrados em nosso nome, setenta e cinco naves de médio porte, cinco veículos todo-terreno.

A mão se ergueu de novo. Pare.

Vinte páginas depois

Ela ainda não acabou com eles.

Como tudo começou

Um servidor com dois membros

Durante anos, nós dois mantivemos um servidor no Discord com exatamente dois membros.

Fırat interpretava todo mundo que passava pela porta: Trascott, Fellin, coronéis, soldados. Alper interpretava um personagem, e sempre um só.

Uma noite normal durava duas horas. As que fugiam do controle duravam seis.

Jogávamos em turco. Quando a última temporada terminou, Alper disse que devíamos pôr tudo aquilo no papel. Fırat concordou antes mesmo de a frase terminar.

Transformar anos de conversas de chat em turco num romance em inglês foi um trabalho demorado. Este livro é o que saiu disso.

Idioma original: inglês

No fim, aquilo já não era bem um jogo. Era onde a gente punha tudo o que não tinha para onde ir.

Alper

O que você vai ler foi feito por duas pessoas tateando no escuro, e sentindo muita coisa enquanto tateavam.

Fırat
  • Yunus Alper Körükcü

    Cocriador e coautor. Interpretou um único personagem durante anos, passou as transcrições em turco para o inglês e editou o livro.

  • Fırat Keleş

    Cocriador e coautor. Interpretou Trascott, Fellin e todos os outros, e pintou a capa e todas as 80 ilustrações.

Acompanhe

Os mundos estão despertando

Estamos abrindo nossos mundos um a um. Siga os que já despertaram; os outros estão a caminho, com teasers curtos feitos a partir de cenas do livro.

Gravado na parede de uma torre, capítulo um

Das cinzas renasceremos.